"Ó vós que aqui entrais: perdei toda a esperança!"

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Eu, Augusto e Anderson.

Está tarde, mas não tarde o suficiente pra não ter carros na rua. Não importa. Quando você está prestes a se foder como eu estou, você não liga muito pros carros na rua, só, às vezes, pras luzes do farol. Quer saber por que eu me foderei? Eu conto:

Em breve, eu estarei andando na minha rua, com um grande poeta atrás de mim, nessa caminhada, vou cruzar com uns três caras e um deles vai estar armado. Vou tentar passar batido, eles virão atrás de mim, vou correr, e eu até escaparia, se o porteiro do meu prédio abrisse o portão. O poeta não vai parar de recitar minha poesia favorita, vou levar um soco no pé do ouvido, depois um chute na boca do estômago, depois milhares de outros chutes. O armado vai sacar o revólver, colocá-lo entre meus olhos, e... E...

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Estamos na rua, eu e o Amigo, Amigo é um amigo meu, cujo apelido é “Amigo”, estamos voltando de um role, mas esse role nada tem a ver com a surra que eu vou levar, mas, no caminho vemos que as coisas no meu bairro estão piorando, tem uma molecada estranha em cada esquina, e constantemente, tem um assassinato. Assassinato. Foi isso que aconteceu. Eu e o Amigo caminhamos rapidamente, pois quando saímos, saímos bonitos, e essa molecada gosta de assaltar gente bonita. Repentinamente ouvimos um som de disparo, acho que foi na rua de trás, e isso foi o suficiente pra nos fazer correr. Corremos em linha reta, chegamos no fim do quarteirão e viramos a esquerda, corremos em linha reta e fomos atravessar a rua. Quando você vai atravessar a rua, geralmente olha pros lados pra ver se vem vindo algum carro, isso é uma regra básica do atravessismo de rua. Olhei pra direta, faixas de pedestre, praça com o chão de concreto e poucas árvores, farol vermelho, nenhum carro. Olhei pra esquerda, rua vazia, postes com luzes amarelas, garoinha, um cadáver com uma bala na cabeça, nenhum carro.

- Mano, eu conhecia aquele cara, ele era gente boa. – Falou o Amigo com um ar de luto.

- Quem é?

Amigo contou rapidamente a história do defunto.

Depois de atravessarmos a rua, paramos de correr e apenas andamos rápido, pra não chamar a atenção. E com razão. Deixe-me falar o que aconteceu:

O cara com a bala na cabeça se chamava Anderson Marcelo Pimenta de Morais, ou “Andersinho”, como era carinhosamente chamado pelas garotas. Andersinho era realmente gente boa, os caras do futebol, da LanHouse, das festas e da facção gostavam dele. Era um rapaz forte, mas tinha um ponto fraco: Mulheres. Pois é, o simpático, forte e mulherengo Andersinho se meteu com a garota errada, pois essa garota era paquerada pelo violento Sandro, que é líder de outra facção. Quando Sandro descobriu que a garota que ele dava em cima dava pra outro, ficou bem puto, e marcou uma briga na saída da escola do cara (Anderson tinha 19 anos e estava na oitava série). Então, no dia, lá estava a rapaziada do Sandro, prontos pra espancarem o coitado do Anderson. Porém, Andersinho era querido demais pra apanhar na saída da escola, logo, outra rapaziada maior ainda estava lá e a seu favor. A lealdade dos amigões de Sandro foi comprovada naquele dia, pois, só um cara bem leal leva uma porra de surra daquelas por alguém. Não contente com a surra, o “Mané-sem-dentes” (como ficou conhecido Sandro depois da briga) apanhou várias outras vezes, até que um dia, deu um fim nas brigas, com um sorriso sem dentes e uma arma apontada pra cabeça de Anderson. A rua estava vazia porque os amigos de Andersinho estavam bem putinhos, e foram todos se armar pra voltar e espancar todos que eles suspeitassem de ter alguma ligação com o Mané-sem-dentes. Com uma porra de uma galera louca de ódio dessas a solta, quem é o imbecil que vai estar na rua? Ah, é, eu.

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A essa altura, alguém já deve ter se perguntado o que uma porra de um poeta tem a ver com tudo isso. Sei lá. Mas isso não muda o fato que ele estava lá. Quer saber qual era o poeta? Eu conto: Ninguém menos que Augusto dos Anjos! Que maravilha!

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Eu e o Amigo andamos até o começo da minha rua, chegando lá, nos separamos.

- Vai com cuidado. – Avisou

- Você também.

Andei um pouco, tinha um homem parado na esquina, então esse cara veio pra perto de mim e começou a me seguir. Eu devia saber que aquilo não podia significar algo bom. Virei pra ver quem era, e lá estava o Augustão, me olhando. Achei estranho, mas continuei andando. E no meu horizonte, estavam meus carrascos. Andando putos. Uivando. Chorando. “Vês!” Gritou Augusto. “O quê?!” Gritei de volta. “Ninguém veio ao formidável...” Prosseguiu ele. “Ah, é, entendi” Respondi aliviado. Passei pelos três. Eles passaram por mim. “Ô muleque!”. Me apavorei, de verdade. Corri e surpreendentemente, Augusto correu comigo. “Pega o filho da puta!” Gritou um deles. Enquanto todos corriam, Augusto ia falando:

“ Só a ingratidão – essa pantera –

Foi tua companheira inseparável!

Acostuma-te a lama que te espera!

O homem que nesta terra miserável

Mora, entre feras, sente inevitável

Vontade de também ser fera.”

Corri bastante, cheguei ao portão do meu prédio, mas o porteiro dormia. E o desgraçado não acordou. “Toma um fósforo. Acende teu cigarro!” Prosseguia Augusto. E, enquanto ele dizia pra eu acender meu cigarro (desprezando o fato de eu não ser fumante), foi quando levei um belo soco no lado da cabeça. “O beijo amigo é a véspera do escarro...!”. Chute na barriga. “A mão que afaga é a mesma que apedreja.”! Caí. Levei muitos, muitos chutes. No olho, na boca, no nariz, no braço, na perna, na mãe. “Se a alguém causa inda pena a tua chaga,”!

- Porra para de gritar! – Falei pra Augusto –

- Com quem você pensa que ta falando moleque?! – Vociferou um dos meus espancadores enquanto sacava o revólver, girava estilosamente a roleta e colocava a ponta do cano entre meus olhos.

- “Apedreja essa mão vil que te afaga,”! – Continuou Augusto.

- Estou falando com ele! – Apontei pro Augusto –

- Com quem?! – Perguntou o cara –

Nesse momento, aconteceram duas coisas interessantíssimas:

1. 1. Percebi que, surpreendentemente, só eu podia ver Augusto.

2. 2. No meio de todo aquele ódio, eu senti que, lá no fundo, o cara estava com um ar de espanto.

Aqui, devo fazer uma pausa, pra pedir desculpas pra família e amigos de Andersinho, e ao próprio Andersinho também. Tentem entender, foi necessário o que fiz, mas saibam que eu mandei recentemente 200 reais pra mãe dele pra ajudar a pagar o caixão do coitado.

Continuando:

- Com ele porra! Não ta vendo?! – Continuei apontando pro Augusto –

- Porra, não tem ninguém ali! Você fumou maconha arrombado?!

- Claro que não! Anderson, fala pra eles me largarem!

O cara me deu um puta soco no olho.

- Você tá louco é caralho?!

- De onde você conhece o Anderson? – Perguntou outro, que até agora tinha ficado quieto, só tinha dados uns chutes na minha boca e nariz –

- Agora ali na esquina! Ele tava contando que se meteu em uma confusão com um tal de Sandro! Mas ele disse que não tem raiva do desse cara não, disse que quando morrermos o que mais vamos querer é paz! E ele ta mais é certo mesmo. Vocês são amigos desse Sandro?

- Porra, ele ta vendo o Anderson mesmo mano. – Falou o quieto –

- Você ta falando sério mesmo? – Perguntou o que estava com a arma na minha cara –

- Tô porra, pergunta pro Anderson, o cara ta aí do seu lado.

Ele me largou num pulo e correu pra perto dos outros.

- Aí ó! Fala com ele! Ele tá indo pro seu lado mano! – Falei com os olhos mais dramáticos da minha vida –

- Tá loco é rapaz! Tá amarrado! – Gritou correndo o armado –

Os outros correram pra direção oposta à dele.

-

Os caras sumiram da vista, fiquei um tempo largado no portão, Augusto tinha sumido sem terminar a poesia. A porra do porteiro tinha acordado faz tempo, não abriu o portão por medo de os caras entrarem, filho da puta. Mas ao menos ele chamou a polícia, que por sua vez, estava ocupada demais atendendo chamados no bairro todo. Levantei capengando. Me arrastei pelos corredores do prédio. Chamei o elevador. Quando abri a porta, pra minha surpresa, lá estava Augusto, “Escarra nessa boca que te beija!”, falou ele.


Em memória de Andersinho.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Manhã

Como sempre, acordei me sentindo estranho, não pensava direito, meus movimentos eram confusos, até as sensações eram confusas, o castelo parecia um pouco mais vazio que o normal, me senti sozinho. Conforme caminhava pelos meus corredores, passava as mãos em cada pedra, em cada móvel. Ia me sentindo melhor. Fui até a janela, olhei pra fora, e um lindo dia acordava comigo, podia-se ver as borboletas voando em pares, os bem-te-vis cantando nas enormes árvores do horizonte. O parapeito de pedra da minha janela estava gelado pela relva. O ar era puro. E então, enquanto eu estava hipnotizado pela paisagem do meu paraíso, fui interrompido por uma doce e melódica voz: “Com fome meu filho?”. Ah, é minha bela mãe! Com a pele lisa como seda, as bochechas rosadas naturalmente, os cabelos loiros sempre penteados e os olhos claros como meu horizonte. Não, ela não foi uma interrupção, foi um grande complemento em minha manhã. “Bom dia minha amada mãe”. Abracei-a e deitei minha cabeça sobre seus seios puros, que me fortaleceram quando eu era apenas um bebê.

Não existe maldade no meu castelo.

“Sim mãe! Estou faminto! Por que não acordamos o meu pai e tomamos nosso deleitoso café da manhã?”. “Meu príncipe, seu pai está descansando, sabemos que não podemos interromper o repouso de um Rei.”. “Tudo bem, então vamos nós, amada mãe.”.

Caminhamos pelo castelo vagarosamente, minha mãe me guia com a mão em minhas costas, nosso caminhar é delicado, como se flutuássemos, no caminho encontramos alguns criados, cumprimentamos todos com um doce sorriso, eles nos reverenciam e prosseguem com seu trabalho. Somos amados por todos.

Chegamos ao nosso belíssimo salão de jantar. A mesa está pronta. Sentamos para deleitarmos da sublime comida temperada pelos melhores cozinheiros do ocidente. Então, Como É De Costume, entra por uma das portas meu tio. Homem grande, forte, com uma barba digna da realeza, não grande, nem pequena, digna. Minha mãe sorri ao vê-lo, vai até ele com movimentos angelicais e toca os lábios dela nos lábios dele, como quem vê alguém querido após muito tempo de ausência do mesmo.

Não existe maldade no meu castelo.

Ele guarda sua poderosa espada ao lado da porta, vem até mim e me beija na testa. “Você está crescendo meu sobrinho. Veja, trouxe este livro pra você, “Comentários menores, de Averróis” está no momento de começar se empenhar nos estudos, sobrinho.”. “Lerei tudo.”.

Sentamos juntos, comemos e ouvimos belas histórias de meu tio, sobre mil aventuras em reinos longínquos. Ficamos maravilhados. É tudo harmonioso. A voz do meu tio, o sorriso de minha mãe, as borboletas em pares lá fora, os criados limpando, o conforto da minha cadeira, o cheiro da deliciosa comida. Agradeço sempre aos Deuses pela grande dádiva que tem sido esses meus pequenos quinze anos de vida. Porém, também é sempre nesse momento que sinto algo estranho, parece que tentam me envenenar todos os dias. Fico mole, com ânsia, muito pesado, tudo começa a borrar, não posso mais tocar a comida na minha frente, meu olhar pesa, ouço ruídos terríveis que não vem de lugar nenhum. Porém, apesar de tudo, meu tio continua falando, minha angelical mãe continua com o seu belo sorriso ouvindo as histórias, parece que eles não notam meu tormento. Tento me fixar no sorriso de minha mãe, sinto que essa é a única forma de me manter vivo. Tudo apaga, percebo que meus olhos estão fechados.



Onde está o meu castelo?



- ONDE ESTÁ O MEU CASTELO?! CADÊ?! EU QUERO MEU CASTELO! EU QUERO!

- Atenção, paciente número 0489, João Cabral Neto, 32 anos, acaba de acordar em surto psicótico. Precisamos de três enfermeiros no quarto 48 preparados com o a droga psicotrópica injetável recomendada vide diagnóstico para esse paciente.

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Como sempre, acordei me sentindo estranho, não pensava direito, meus movimentos eram confusos, até as sensações eram confusas, o castelo parecia um pouco mais vazio que o normal, me senti sozinho. [...]